quarta-feira, 24 de junho de 2009

Tambor de Crioula

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Tambor de Crioula

TAMBOR DE CRIOULA

O Tambor de Crioula é uma dança de origem africana praticada por descendentes de negros no Maranhão em louvor a São Benedito, um dos santos mais populares entre os negros. É uma dança alegre, marcada por muito movimento dos brincantes e muita descontração.
Os motivos que levam os grupos a dançarem o tambor de crioula são variados podendo ser: pagamento de promessa para São Benedito, festa de aniversário, chegada ou despedida de parente ou amigo, comemoração pela vitória de um time de futebol, nascimento de criança, matança de bumba-meu-boi, festa de preto velho ou simples reunião de amigos.
Não existe um dia determinado no calendário para a dança, que pode ser apresentada, preferencialmente, ao ar livre, em qualquer época do ano. Atualmente, o tambor de crioula é dançado com maior freqüência no carnaval e durante as festas juninas.
A dança Tambor de Crioula não requer ensaios. Originalmente não exigia um tipo de indumentária fixa, mas nos dias atuais a dança pode ser vista com as brincantes vestidas em saias rodadas com estampas em cores vivas, anáguas largas com renda na borda e blusas rendadas e decotadas brancas ou de cor. Os adornos de flores, colares, pulseiras e torços coloridos na cabeça terminam de compor a caracterização da dançante. Os homens trajam calça escura e camisa estampada.
A animação é feita com o canto puxado pelos homens com o acompanhamento das mulheres. Um brincante puxa a toada de levantamento que pode ser uma toada já existente ou improvisada. Em seguida, o coro, integrado pelos instrumentistas e pelas mulheres, acompanha, passando esse canto a compor o refrão para os improvisos que se sucederão. Os temas, puxados livremente em toadas, podem ser classificados como de auto-apresentação, louvação aos santos protetores, sátiras, homenagem às mulheres, desafio de cantadores, fatos do cotidiano e despedida.
A coreografia da dança apresenta vibrantes formas de expressão corporal, principalmente pelas mulheres que ressaltam, em movimentos coordenados e harmoniosos, cada parte do corpo (cabeça, ombros, braços, cintura, quadris, pernas e pés). As dançantes se apresentam individualmente no interior de uma roda formada por um grupo de vários brincantes, incluindo dirigentes, dançantes, cantadores e tocadores. Da roda, participam também os acompanhantes do tambor. Todos acompanham o ritmo com palmas.
O Tambor de Crioula apresenta coreografia livre e variada. A brincante que está no centro é responsável pela demonstração coreográfica principal, mostrando sua forma individual de dançar. No centro da roda, os movimentos são mais livres, mais intensos e bem acentuados, seguindo o compasso dos tocadores.
Na dança Tambor de Crioula, encontramos uma particularidade que se constitui o ponto mais alto da coreografia da dança: a punga. Entre as mulheres, se caracteriza como um convite para entrar na roda. Quando a brincante está no centro e quer sair, avança em direção a outra companheira, aplicando-lhe a punga, que consiste no toque com a barriga. A que estiver na roda vai para o centro para continuar a brincadeira.
Toda a marcação dos passos da dança é feita por um conjunto de tambores que os brincantes chamam de parelha. São três tambores nos tamanhos pequeno, médio e grande, feitos de troncos de mangue, pau d'arco, soró ou angelim. Um par de matracas batidas no corpo do tambor grande auxilia na marcação. O tambor pequeno é conhecido como crivador ou pererengue; o médio é chamado de meião, meio ou chamador e o grande recebe, entre os tocadores, os nomes de roncador ou rufador.
Os tambores são bastante rústicos, feitos manualmente de troncos cortados nos três tamanhos e trabalhados exteriormente com plainas para que a parte superior fique mais larga que a inferior. Internamente, o tronco é trabalhado a fogo com o auxílio de instrumentos de ferro para que fique oco. A cobertura do tambor é feita com o couro de boi, veado, cavalo ou tamanduá. Depois da cobertura, é derramado azeite doce no couro que fica exposto ao sol para enxugar e atingir o "ponto de honra", quando é considerado totalmente pronto. Durante a dança, os tambores são esquentados na fogueira para que tenham afinação perfeita.
Em 2007, o Tambor de Crioula ganhou o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro


Tambor de Crioula é Patrimônio do Brasil
Um cortejo com mais de três mil pessoas marcou as comemorações na noite de ontem (18 de junho), em São Luis, do registro do Tambor de Crioula no Livro das Formas de Expressão do Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro. Praticada no Maranhão desde a época da escravidão, é o décimo primeiro bem cultural de natureza imaterial inscrito em um dos quatro Livros de Registro do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial. Já haviam sido registrados: Ofício das Paneleiras de Goiabeiras (ES), Arte Kusiwa dos Wajãpi (AP), Círio de Nazaré (PA), Samba de Roda no Recôncavo Baiano (BA), Viola-de-Cocho (MT/MS), Ofício das Baianas de Acarajé (BA), Jongo no Sudeste (RJ), Cachoeira de Iauaretê (AM), Feira de Caruaru (PE) e Frevo (PE).
Depois da reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) - que se estendeu por toda tarde no terreiro mais antigo da capital maranhense, a Casa das Minas - o ministro da Cultura, Gilberto Gil, anunciou o registro para os milhares de brincantes que tomaram as ruas do centro de São Luis com seus tambores e coreiras.
Acompanhado do presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida, do governador do Maranhão, Jackson Lago, da prefeita em exercício, Sandra Torres, dos representantes do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e dos brincantes, o ministro Gil seguiu a procissão que levou o padroeiro da manifestação, São Benedito – santo protetor dos negros -, de volta à sua capela, no centro da cidade. Em seguida, participou da solenidade de celebração do registro, na Casa do Tambor de Crioula.
Plano de Salvaguarda
O ministro da Cultura afirmou que o registro foi a primeira ação de um conjunto de políticas que o Governo Federal pretende implementar para a preservação do bem cultural. "Um Plano de Salvaguarda do Tambor de Crioula deverá contemplar políticas que assegurem a transmissão dos saberes, o estímulo a novos compositores e o apoio ao registro fonográfico e audiovisual", disse Gil, que também destacou a necessidade de se investir na difusão e no incentivo de pesquisas sobre a manifestação.
Em um discurso emocionado, alertou para a importância de se envolver jovens e crianças nas ações de preservação. Gil também aproveitou para mobilizar os brincantes e as três esferas governamentais (federal, estadual e municipal). "Não é o registro que vai garantir a sobrevivência do Tambor de Crioula, mas é a responsabilidade de todos nós", convocou.
O presidente do Iphan, por sua vez, explicou que o registro do Tambor de Crioula se insere numa ação de mapeamento, inventário e valorização das várias formas tradicionais do samba existentes no Brasil. "Falo da diversidade que abarca o Samba de Roda baiano, o Partido Alto e o Samba de Terreiro do Rio de Janeiro, o Samba Rural paulista e o Coco do Nordeste", disse Luiz Fernando, que lembrou da expedição folcórica empreendida pelo poeta Mário de Andrade, nos Anos 30, quando foi catalogada a manifestação maranhense.
Para o governador Jackson Lago, o registro do Tambor de Crioula foi muito importante para a consolidação cultural do estado. "O título representa para o Maranhão um momento honroso. Faz nos dar conta das nossas origens, da nossa história e da nossa força cultural", declarou.


Diversos mestres do Tambor destacaram a importância do registro para a sustentabilidade dos grupos e das comunidades. "O registro do Tambor veio para melhorar as condições do grupo e divulgar ele em todo Brasil", disse o mestre Amaral. Já o mestre Felipe, do Tambor de Crioula União de São Benedito, lembrou da função social que o Tambor exerce na vida dos jovens: "hoje temos muitas crianças carentes no grupo e o tambor tira essas crianças da marginalidade". Ele, que é um dos mestres mais antigos da região, destaca orgulho que "essa é uma dança que todo o Brasil deveria conhecer".
Neste ano celebra-se os 70 anos de existência do Iphan e de realização da expedição folclórica empreendida pelo poeta Mário de Andrade, quando foi catalogado o Tambor de Crioula do Maranhão e outras expressões populares. "Naquele momento, junto com a criação do Iphan, estavam sendo lançadas as bases de uma política de preservação que reconhece a riqueza, a dimensão, a complexidade e a diversidade do patrimônio cultural brasileiro", declarou o presidente do Iphan.
Luiz Fernando também ressaltou a importância de reconhecer a beleza, a força, o valor e a importância das pessoas que preservam a tradição do Tambor de Crioula, uma manifestação da cultura popular maranhense que envolve dança circular, canto e percussão de três tambores.
Para a prefeita Sandra Torres, a expressão cultural é um dos mais fortes exemplos da criatividade e da resistência dos descendentes de escravos no Maranhão. "A cultura é o viés mais forte para erguer a auto-estima de um povo", ressaltou.
Tambor de Crioula
Envolvendo dança circular, canto e percussão, o Tambor de Crioula tem sua origem ligada à resistência cultural dos negros e de seus descendentes. Seu reconhecimento veio se constituindo aos poucos.
No dia 6 de setembro, celebra-se a data dessa que é uma das mais belas manifestações culturais do Maranhão e que, desde o ano passado, passou a contar com o seu memorial, a Casa do Tambor de Crioula, instalada em uma antiga fábrica no centro de São Luís.
Atualmente, no Maranhão, vem sendo apropriado por grupos distintos e praticado por pessoas da classe média, estudantes, artistas e intelectuais. Existem mais de sessenta grupos de Tambor de Crioula catalogados no estado.